Grupos de Trabalhos

GT 01 – Estado e “terror racial” na América Latina

Ana Flauzina (UNILAB) – anaflauzina@yahoo.com.br 
Osmundo Pinho (UFRB) – osmundopinho@uol.com.br

Resumo: Nesse GT almejamos reunir estudos de natureza teórica, etnográfica, sociológica, histórica e/ou baseados em experiências práticas de resistência comunitária contra as diversas formas de articulação do Estado como executor ou garantidor da violência racializada, que, em suas distintas modalidades, tem a produção da morte como horizonte político fundante. As dimensões do racismo materializadas no epistemicídio, na violência física direta, no encarceramento, dentre outros, revelam a precariedade da vida negra como traço constitutivo da Diáspora. Tais reflexões interrogam o Estado e as formações sociais latinoamericanas, no âmbito da revisão critica e da luta política pela descolonização das estruturas políticas, dos corpos, das subjetividades e das formas de conhecimento. Sob a inspiração do pensamento radical de Frantz Fanon buscamos construir um espaço de reflexão desde a zona do “não-ser” colonial e anti-negra, em consonância com a mobilização crítica descolonial.
Palavras-chave: Estado; Terror Racial; Epistemicídio; America Latina; F. Fanon.

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GT 02 – Interculturalidade epistêmica e perspectivas decoloniais na América Latina

Elias Nazareno (UFG) – eliasna@hotmail.com

Cleusa Gomes da Silva (UNILA) – cleusa.gomes@unila.edu.br

Waldemir Rosa (UNILA) – waldemir.rosa@unila.edu.br

Resumo: A temática procura contemplar as inciativas realizadas ou em curso que compreendem a interculturalidade crítica e a decolonialidade como processos e projetos sociais, políticos, éticos e epistêmicos. Tais iniciativas, entendidas como estratégias de resiliência, de desobediência epistêmica e de proposição alternativa as perspectivas monológicas e excludentes vinculadas unicamente às epistemologias ocidentais. Contempla ainda os estudos que tratam dos espaços pluriepistemológicos que trazem à superfície saberes e narrativas outras que foram historicamente negligenciadas e subalternizadas. Perceber a decolonialidade como possibilidade de desprendimento e de abertura às possibilidades encobertas pela racionalidade ocidental.
Palavras-chave: Interculturalidade; Decolonialidade; Subalternidade.

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GT03 – Família como categoria epistemológica

Alessandro Cavassin Alves (FASBAM) – alessandrocavassin@gmail.com
Ana Christina Vanali  (UTFPR) – anacvanali@yahoo.com.br

Resumo: Boaventura de Sousa Santos demonstra haver três grandes fontes de opressão no mundo atual: o capitalismo centralizador da renda, do poder e do saber. Como consequência temos um colonialismo com relações sociais desiguais entre o “centro e a periferia”, que com a ajuda do patriarcado, e atuando em conjunto, excluem, desta forma, grande parte da população mundial dos benefícios que elas mesmas produzem. As populações que se encontram no “Sul” geopolítico, composto por um conjunto de países e povos sujeitos a esta opressão são as que mais sofrem. Entretanto, que mecanismos sustentam esta exclusão? Das inúmeras possibilidades de respostas, uma delas seria a de observar a referência à família da elite, enquanto classe dominante, “pequenas elites locais que se beneficiaram [e se beneficiam] da dominação capitalista e colonial”, desde o exemplo da “família patriarcal brasileira” analisadas em estudos “clássicos”, como de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Oliveira Viana, até os dias atuais, sobrevivendo enquanto “unidades de interesses” na economia, na política e na infiltração de “práticas políticas tradicionais” em instituições políticas modernas, visando manter seu status quo. Analisar a família, portanto, como categoria epistemológica, tendo como foco sua atuação ao longo de gerações, inclusive numa perspectiva genealógica, de consolidação de interesses, atrelados ao capitalismo, colonialismo estrutural e ao patriarcado, mesmo em detrimento de sua realidade local, é um fato que deve ser estudado pelas ciências sociais. Famílias da elite, em países periféricos, que concentram poder e riquezas, enquanto classe dominante, e estão atreladas ao poder capitalista, ao Estado, a associações de classe, a ideologias conservadoras, precisam ser apontadas e discutidas por estudos empíricos. E, afinal, a família é um objeto de estudos importante como fator explicativo das desigualdades sociais existentes. E, para repensar o tema família como categoria epistemológica, torna-se necessário, ter presente o balanço do que foi produzido em torno do conceito, tendo como base o “Sul” epistemológico, que reivindica sua autonomia de reflexão, explorando as relações diferenciais dessa literatura com o modelo da família patriarcal, amplamente estudado, e os estudos empíricos que vem sendo produzidos, é o que a linha desse grupo de trabalho pretende estimular. Portanto, a análise das relações entre estruturas de poder e estruturas de parentesco; os fenômenos do nepotismo em suas formas sociais e políticas; famílias, familismo e instituições; questões de gênero e família; famílias da elite; grandes empresas, grandes famílias; desigualdades sociais que envolvem famílias de classes diferentes; invisibilidade de outros modelos familiares; genealogia; a reprodução social e as dimensões da hereditariedade; habitus de classe, trajetórias e capitais sociais familiares; são temas que podem ser abordados nesse GT.
Palavras-chave: Família; Desigualdades Sociais; Gênero.

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GT04 – Democracia y populismo

Silvina Mercedes Irusta (Univ. Nac. de Villa María/Argentina) –  silvirusta@hotmail.com
Mauricio Jose Avilez Alvares (UFSC) – mauriciojaalvarez@gmail.com

Resúmen: Haciendo una revisión de la literatura especializada que aborda la relación entre populismo y la democracia, advertimos que durante mucho tiempo las ciencias sociales han estudiado estas temáticas de forma casi antagónicas. El populismo, ha sido analizado desde mediados del siglo XX, como un fenómeno impregnado de fuertes aspectos autoritarios y con políticas que afectan negativamente el desarrollo democrático. Ese populismo es presentado como experiencias que ya pasaron y que fracasaron en los países de América Latina. Al mismo tiempo en que se muestra que la democracia ha ido ganando espacio, con la superación de las dictaduras militares, con la transición y consolidación de sistemas democráticos, que no dependen de liderazgos personalizados y que tienen sistemas partidarios con ciertos grados de estabilidad. De este modo, ha prevalecido la visión procedimentalista liberal en los estudios sobre la democracia latinoamericana, sobre todo a partir de los  años ochenta.  Sin embargo, la dinámica política en las dos últimas décadas, de los regímenes de este continente, ha mostrado un fenómeno muy interesante, donde democráticamente se fueron gestando gobiernos que han presentado articulaciones interesantes entre la institucionalidad democrática y la inclusión del “pueblo” en el espacio público, como los casos de Argentina con los Kirchner, de Venezuela con Chávez, de Ecuador con Correa, de Brasil con Lula y de Bolivia con Morales, o de los procesos fallidos de Paraguay con Lugo y de Honduras con Zelaya. Esta nueva situación cuestiona las formas en que se han analizado estas dos temáticas como poco compatibles. Genera la necesidad de abrir espacios para revisar y debatir la relación que existe entre la democracia y el populismo, desde nuevas perspectivas que, epistemológicamente, nos acerquen a comprender nuestra realidad latinoamericana.
Palabras-clave: Democracia; Populismo; América Latina.

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GT05 – Repensando as linhas abissais: perspectivas críticas da museologia e do patrimônio cultural

Marcelle Regina Nogueira Pereira (UNIR) – marcelle.pereira@unir.br

Juliana Maria de Siqueira (ULHT, Lisboa) – ju.de.siqueira@gmail.com

Resumo: Os museus emergem como fenômeno moderno no contexto do colonialismo – sistema de dominação ancorado na afirmação da ciência ocidental como paradigma do conhecimento universalmente válido e do modo de vida europeu como modelo de civilização, progresso, crescimento econômico e desenvolvimento social, sucessivamente. Tributários dessa herança, a Museologia e os estudos sobre o patrimônio cultural, ao longo do século XX, têm empreendido notável esforço para romper a monocultura de suas práticas e teorias, em direção à compreensão crítica e atuação engajada junto a diferentes contextos socioculturais, políticos e econômicos. Foi a partir das demandas pautadas pelos diversos movimentos sociais, em fins da década de 60, que se amplificou o questionamento ao papel desempenhado pelas instituições culturais. Desde então, multiplicaram-se as vertentes e tipologias que afirmam uma ação museológica e patrimonial protagonizada pelas comunidades. Com foco no campo social, compreendemos que é cada vez mais grave o cenário de violências e violações de direitos, de exclusão, intolerância, extermínio e crimes ambientais, sobretudo nas fronteiras interculturais sobre as quais a modernidade traçou sua linha abissal, e contra as quais o capital globalizado não cessa de investir. São justamente as populações que (r)existem, com seus modos próprios de viver e conhecer, as que nos ensinam outras formas de preservar e comunicar a cultura, desenvolvendo práticas de memória que são, simultaneamente, de luta pela vida e defesa de direitos, de diálogo e inclusividade, de respeito e harmonia com a natureza. Historicamente, experimentamos um momento em que a ciência ocidental não bastará para conceber alternativas ao colapso socioambiental que se aproxima, sendo urgente recorrermos às chamadas Epistemologias do Sul – diferentes cosmovisões libertárias e descoloniais, que sobreviveram e se afirmaram de dentro do abismo – e reconstruirmos, com elas, novas ecologias de saberes. Este GT pretende acolher pesquisas e relatos de experiências que abarquem múltiplas perspectivas críticas sobre a Museologia e o Patrimônio Cultural, em suas diversas áreas de aplicação, com destaque para a problemática da hierarquização dos saberes, a partir de novas abordagens museológicas e de narrativas inclusivas que dêem conta de outras interpretações de mundo. Buscamos com o GT encontrar alternativas que nos permitam pensar em uma descolonização dos museus. Desde a teoria à museografia, da educação às políticas públicas, passando pelas metodologias de investigação e trabalho, abriremos espaço para o reconhecimento de novas explorações propiciadas pelas Epistemologias do Sul sobre a compreensão e a produção/gestão de museus, dos processos museológicos e do patrimônio cultural. Com isso, esperamos identificar e visibilizar abordagens que ajudem a transver esses campos, bem como incentivar a formação de redes de colaboração e partilha entre estudiosos, trabalhadores, militantes e comunidades.
Palavras-chave: Ecologia de saberes; Epistemologias do Sul; Museologia; Patrimônio Cultural; Pensamento Descolonial.

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GT06 – “A Queda do Céu” e as possibilidades de renovação no pensamento social e político

Rosilene Waikhon Fonseca (UFSC) – rosiwaikhon.ifp@gmail.co

Alberto Luiz de Andrade Neto (UFSC) – alberto_andrade_neto@hotmail.com

Resumo: O Grupo de Trabalho “A Queda do Céu” e as possiblidades de renovação no pensamento social e político é uma proposta que visa (re)pensar e (re)elaborar diferentes direções para as áreas que compreendem as Ciências Sociais e seus campos de diálogo. A obra literária A Queda do Céu, traduzida em português, espanhol e francês, dos autores Davi Kopenawa e Bruce Albert, é um pilar estrutural para as reflexões e possibilidades dentro de uma dinâmica que pretende dialogar e construir caminhos para o pensamento social e político na América do Sul e Caribe. Este GT pretende reunir pesquisas recentes que analisam as produções realizadas a partir do livro A Queda do Céu e os textos que incorporam essa obra em suas análises. A curadoria de Moacir dos Anjos com a exposição de mesmo título, as pesquisas dos estudiosos Eduardo Viveiros de Castro, José Antonio Kelly Luciani e Bruce Albert serão elementos chave para as elaborações acerca das temáticas. O escopo das investigações a serem apresentadas deve dialogar com cosmologias indígenas, alternativas e críticas no âmbito político, relações de gênero nas práticas xamânicas, análises humano-animal, patrimônio/arte/visualidade, elaborações acerca do território, antropologia da técnica e práticas de cultivo, análises de discursos, identidade, território e performance. Será fundamental analisar o que este esforço literário traz de novo para as produções contemporâneas nas aéreas das humanidades, das sociais e dos campos aproximáveis. Sabemos que a pesquisa, de mais de uma década, apresenta um importante debate acerca do povo Yanomami, porém as investigações sobre outros povos serão recebidas com bastaste entusiasmo.
Palavras-chave: A queda do céu; Cosmologias; Xamanismo; Território.

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GT07 – Bordando outro ponto de vista: pensamento envolvente para feminismos, negritudes e fazeres cotidianos

Luciene de Oliveira Dias (UFG) – lucienediasj@gmail.com
Ralyanara Moreira Freire (UNICAMP) – ralyanara@gmail.com

Resumo: Os feminismos negros nos apresentam a possibilidade de alcançar os diversos “pontos de vista” de forma pedagógica no sentido de criar verdadeiras “comunidades de aprendizagem” para a construção dos antirracismos e ações afirmativas, em um movimento que pode ser compreendido como uma pedagogia decolonial. Por isso, o empenho aqui é aglutinar trabalhos que versem sobre mulheres em suas lutas e vivências para enfrentar o silenciamento cotidiano e reorientar o pensamento. Consideramos a necessidade da denúncia e do combate, mas fundamentalmente focalizamos nosso olhar para trajetórias afirmadas e prospectivas, daí a defesa de que a multiplicidade e a pluralidade são alcançadas a partir das especificidades. O que buscamos é o fortalecimento de pautas antirracistas, feministas e pluriepistêmicas, a partir de aprofundamentos nas pesquisas sobre mulheres em suas lutas e vivências. Interessam-nos estudos propositivos sobre relações de gênero e étnico-raciais a partir da troca de saberes, a exemplo de lesbianidades negras, matriarcados, diásporas e memórias de fazeres e saberes de mulheres em movimento, atuação de mulheres na educação, bordadeiras, parteiras, quilombolas, indígenas e outras que descolonizam saberes. Nos interessam propostas orientadas para o enfrentamento do racismo, do machismo e das fobias sociais. Nossa trajetória congrega vertentes feministas da América Latina, Afro-Caribenha, decolonial e dos estudos subalternos como produções de conhecimento capazes de reorientar pesquisas de forma interdisciplinar e interseccional.

Palavras-chave: Feminismos Negros; Antirracismos; Mulheres; Diáspora.

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GT08 – Experiências de Mediação de Leitura na América Latina – ambientes escolares e não escolares

Cristiane Checchia (UNILA) – cristiane.checchia@unila.edu.br
Mário Rene Rodríguez Torres (UNILA) – mario.torres@unila.edu.br

Resumo: O objetivo desse grupo de trabalho é propiciar um espaço de reflexão e encontro entre pesquisadores que investigam sobre a mediação de leitura em contextos adversos, escolares e não-escolares (como por exemplo prisões, albergues, hospitais, orfanatos, clínicas), em distintos países da América Latina. Essa proposta é inspirada nos trabalhos da antropóloga Michèle Petit, que reúnem relatos de experiências realizadas em diferentes países latino-americanos, mostrando a importância da atuação de mediadores que ajudaram, mais ou menos conscientemente, na superação de algumas barreiras e na aproximação de indivíduos ao universo dos livros. Esses mediadores podem trabalhar em um tête-à-tête com o possível leitor, ou em situações de grupo, no qual se lê em voz alta e se conversa livremente explorando o texto. A proposta de refletir sobre a atuação de mediadores de leitura em contextos adversos no âmbito latino-americano, demanda preferencialmente uma abordagem multidisciplinar, a fim de que se possa dar conta da complexidade dos fenômenos envolvidos nessas experiências. Há questões de várias ordens implicadas, envolvendo múltiplos campos disciplinares: – questões teóricas sobre as relações entre a linguagem (literária) e a formação da subjetividade; – questões metodológicas envolvidas nas experiências de formação de leitores; – questões filosóficas inerentes às relações intersubjetivas em contexto de comunidades de aprendizagem e de leitura coletiva; – questões antropológicas presentes no trabalho de observação e de atuação junto a uma comunidade distinta a do mediador; – dependendo do contexto, há questões específicas de gênero e da subjetividade feminina; – há a necessidade de ampliar um acervo de experiências reconhecidas de mediação cultural envolvendo círculos de leitura e formação de leitores em situações adversas, realizadas no Brasil e em outros países da América Latina. O objetivo da constituição deste grupo de trabalho é, portanto, propiciar um espaço de reflexão e de mergulho nas incertezas inerentes a fenômenos complexos, como os de mediação cultural e, mais especificamente, de mediação de leitura na adversidade, evitando as “receitas de atuação”. A partir disso, foram levantadas algumas perguntas iniciais que podem ser levadas em conta na organização desse Grupo de Discussão: – Quais as diferentes concepções do papel do mediador de leitura? – Qual o lugar e o papel das leituras de literatura no empoderamento dos sujeitos em situação de adversidade? – O que esses sujeitos em situação adversa nos dizem sobre a literatura? – Como pensar a horizontalidade ou a assimetria das relações nos espaços de mediação? – De que forma os diferentes marcadores sociais, como classe, raça, gênero, capacitismo, estão presentes nos contextos em que se realizam as ações de mediação?
Palavras-chave: Mediação cultural; Mediação de leitura; Formação de leitores.

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GT09 – Perspectivas epistemológicas, vivências e outras racionalidades: implicações e desafios para o fazer científico contemporâneo

Fábio Nunes de Jesus (UNEB) – fabionuness@yahoo.com.br
Jacy Bandeira Almeida Nunes (UNEB) – jacy_bandeira@yahoo.com.br

Resumo: O olhar e a voz dos diferentes povos contemplam outras racionalidades e exigem novos modos de compreensão e interpretação das práticas sócio espaciais condutoras de sentidos da realidade que se quer desvelar em curso, pois “o conhecimento que construímos sobre o real intervém nele e tem consequências.” (SANTOS, 2010, p. 159). Partindo do pressuposto de que a articulação entre os fundamentos filosóficos, teóricos e metodológicos devem convergir com as orientações científicas no desenvolvimento da pesquisa, as perspectivas epistemológicas contemporâneas apontam o potencial de transcender os marcos epistemológicos da ciência moderna, no sentindo de superar a visão tecnicista predominante, a hegemonia eurocêntrica e considerar as pluralidades internas e externas do fazer científico que informam a diversidade epistêmica. Nessa ótica, as questões que suscitam são: como vem se configurando a atividade científica diante perspectivas epistemológicas contemporâneas? Quais os desafios e implicações teóricas e metodológicas? Quais diretrizes técnicas e teóricas básicas que contemplam tais perspectivas? A proposta é que o grupo de trabalho possa desvelar a configuração das atividades científicas diante das perspectivas epistemológicas contemporâneas; discutir as diretrizes básicas para o desenvolvimento das atividades de pesquisa em função das perspectivas epistêmicas; cotejar as implicações e os desafios que estas trazem para o fazer científico; e, indicar proposições que possam orientar os pesquisadores.
Palavras-chave: Perspectivas Epistemológicas; Racionalidades; Vivências; Ciência.

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GT10 – População Negra: raça e gênero, políticas públicas e desigualdades

Angela Maria de Souza (UNILA) – angela.souza@unila.edu.br
Cinthia Marques Santos (UFG) – cinthiamasan@hotmail.com

Resumo: Historicamente a população negra, urbana e rural, tem ocupado locais sociais subalternizados em países da América Latina e especialmente no Brasil, uma vez que o país e tantos outros foram formados, inicialmente, por processos de escravização e sequestro de povos africanos e povos autóctones, aqui tornados negras/os e escravas/os e indígenas. É neste processo de escravização e colonização que se configura o racismo, no Brasil e em demais países da América Latina, que ainda no século XXI figura como um dos entraves ao desenvolvimento socioeconômico igualitário entre população negra e não negra. Entendendo raça como um construto social, que se passa por “natural”, Aníbal Quijano enfatiza que por essa categoria reforçam-se as disparidades que sustentam a colonialidade do poder que, tão comum no mundo colonizado, cria hierarquias de ordem social baseada em raça e gênero. Tal constatação deve levar-nos a problematizar, seja nos espaços do domínio estatal ou civil, as sociedades hierarquizadas que o sistema colonial constituiu. Assim, pensar as ações, políticas públicas direcionadas a população negra, em sua diversidade, é refletir sobre reparação, promoção de equidade e o modo como Estado posiciona-se diante da existência do racismo e o reconhecimento do mesmo com finalidade a combater práticas discriminatórias que gera desigualdades sociais. O presente GT tem como intenção agrupar investigações, com distintas abordagens, que versem sobre raça e gênero, políticas públicas e desigualdades a fim de fomentar ampla discussão acerca da situação da população negra no Brasil e demais países da América Latina.
Palavras-chave: População Negra; Gênero; Raça; Políticas Públicas.

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GT11 – Web-feminismos sulamericanos

Dulcilei da Conceição Lima (UFABC) – dulcilima78@gmail.com
Ana Keila Pinezi (UFABC) – keipinezi@gmail.com

Resumo: Os feminismos latino-americanos guardam características que diferem dos feminismos de outras regiões do globo, especialmente em comparação com o norte global. Os feminismos ao sul do continente americano são marcados pela negação, reação e oposição aos avanços do neoliberalismo, inclusive contrapondo-se, em alguns momentos, aos feminismos do norte, principalmente por considerarem que mulheres e meninas do sul global são o “outro radical da globalização”. Ao longo da década de 1990 os feminismos latino-americanos expandiram seu campo de ação abarcando novas arenas culturais, sociais e políticas. Os movimentos se transversalizaram e se estenderam em direção a diferentes esferas estatais e políticas, atingindo uma ampla diversidade de classes e movimentos sociais. Organizações feministas de mulheres negras, indígenas e rurais cresceram consideravelmente ampliando os parâmetros da agenda feminista. Essa disseminação das concepções feministas tem produzido resultados positivos em políticas públicas, e aos poucos tem se inserido no imaginário e cultura popular diluindo as resistências ideológicas em relação ao feminismo. Os anos 1990 foram ainda marcados pelo surgimento de novas categorias de análise que pressupunham a incorporação das “diferenças” articulando as questões de gênero a outras categorias como raça, sexualidade, classe, região, geração etc. Nesse contexto surgem as categorias de articulação e/ou interseccionalidades. Entretanto, foi só nos anos 2000 que a utilização desses conceitos se popularizou. Como resultado do empenho das organizações feministas em estender suas pautas para outros territórios, temos a incursão de feministas no ciberespaço. A atuação de coletivos feministas no ciberespaço surge nos anos 1990 sob o desígnio de ciberfeminismo, definido como um conjunto de estratégias que articulam estética, política e comunicação utilizando a tecnologia digital e a internet como ferramentas para emancipação e empoderamento das mulheres. A articulação entre teorias e práticas políticas nas duas últimas décadas ultrapassa a noção de ciberfeminismo. Atualmente as análises incorporaram a perspectiva interseccional abrindo espaço para discussões sobre a relação entre mulheres e novas tecnologias que associadas com marcadores da diferença (anteriormente mencionados) apontam para as múltiplas possibilidades oferecidas pelas tecnologias como campo privilegiado para atuação dos feminismos. As novas tecnologias se tornaram ferramentas estratégicas e fundamentais para atuação dos feminismos contemporâneos. A Web 2.0 facilitou a criação e consolidação de redes entre coletivos e organizações feministas, permitiu o surgimento de novos grupos, bem como colaborou com o desenvolvimento de novas estratégias e áreas de atuação impulsionando o processo de popularização dos feminismos iniciado nos anos 1990. Hoje em uma rápida navegação na web é possível encontrar um grande número de mulheres cis e trans (seja em ação individual ou coletiva) produzindo reflexões, promovendo debates, desenvolvendo textos, imagens, sons e campanhas de conteúdo feminista em suas várias vertentes. A partir dessa constatação é que se propõe nesse GT reunir pesquisas que tenham como objeto de análise as experiências, práticas e produções (escritas e/ou audiovisuais) de natureza feminista, desenvolvidas em território web e que sejam de autoria de mulheres sul-americanas de diferentes etnias, orientações sexuais e identidades de gênero.
Palavras-chave: Feminismo; Mulheres; Web; Ciberespaço; Interseccionalidade.

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GT12 – Diálogos interculturais e epistemologias outras: sujeitos, linguagens, práticas e políticas de educação e de produção do conhecimento

Claudilene Maria da Silva (UNILAB) – claudilenems@unilab.edu.br

Cristiane Santos Souza (UNILAB) – criskasouza@unilab.edu.br

Resumo: A inexistência de consensos sobre o sentido da categoria interculturalidade”, tem possibilitado que em alguns contextos, os termos interculturalidade e multiculturalidade venham sendo utilizados, como sinônimos para fazer referência à existência de múltiplas culturas em um determinado lugar, defendendo seu reconhecimento, convivência e respeito. Assim, no âmbito das políticas públicas os termos têm atuado como categorias úteis para integrar, assimilar ou controlar a diferença, segundo o projeto sociocultural em jogo. No campo da educação, concebido como território de disputas sociais, essas políticas tem se alternado: ora adquirindo conotações diversas associadas principalmente à assimilação e integração de minorias étnico-raciais e culturais nos projetos educativos dominantes; ora associadas a projetos de contestação e/ou transformação das políticas ditas multiculturais por parte das populações subalternizadas, especialmente as negras e indígenas. Todavia, a trajetória da luta dos movimentos negros e indígenas por educação nos revela a existência e vivência de processos internos das organizações e comunidades para construir e fortalecer um pensamento e um conhecimento próprios. Neste sentido, consideramos que visibilizar e refletir sobre as experiências de produção de conhecimento desde e com os povos subalternizados, pondo em relevo as tensões e interseções que compõem a cena das relações interétnicas e interculturais pode potencializar o diálogo intercultural, como categoria fundante na construção de práticas epistemológicas outras. O Grupo de Trabalho “Diálogos Interculturais e Epistemologias Outras: sujeitos, linguagens, práticas e políticas de educação e de produção do conhecimento” propõe-se, portanto, como um espaço de discussão, reflexão e interlocução, que deseja reunir pesquisadoras/es interessadas/os em (re)pensar criticamente a categoria diálogo intercultural e suas (im)possibilidades e potencialidades de transformação em diálogo epistêmico entre culturas, bem como criar repertórios de linguagens, práticas e políticas de educação e de produção do conhecimento, desde a perspectiva epistêmica das populações subalternizadas, especialmente, as negras e indígenas.
Palavras-chave: Diálogo intercultural; Populações Subalternizadas; Produção de Conhecimento; Epistemologias Outras

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GT13 – Corpo e Educação: formação docente para as ausências e para as emergências das populações afro-brasileiras

Eduardo Oliveira Miranda (UFBA) – eduardomiranda48@gmail.com
Maria Cecilia de Paula Silva (UFBA) – cecilipaula@gmail.com

Resumo: O GT se propõe a ser um espaço de encruzilhadas e compartilhamentos de experiências no campo da formação docente, mas que tenha como lastro fecundo as potencialidades do Corpo e Educação. Ao pensar em formação de educadores incluímos os saberes produzidos tanto no campo do espaço formal quanto do não formal, pois acreditamos que ambos os aportes são possibilidades provocativas e oportunas para propor estratégias que abordem as ausências e problematize as emergências. Para tal, o GT vai abarcar pesquisas com temáticas elucidativas das populações afro-brasileiras tendo a finalidade de apontar as ausências e emergências desses saberes nos espaços educativos, assim como o rebatimento dessas abordagens nas construções das identidades dos professores. A proposta aqui descrita intenta contribuir para tencionar a continuidade da Razão Indolente, a qual perpassa por toda a formação social, educativa, política e cultural brasileira. Nesse cenário, a razão metonímica tem soterrado vivas as epistemologias pautadas nas concepções de mundo matizadas pelas civilizações africanas e afro-brasileiras. Contudo, propor esse território de socialização das pesquisas acadêmicas se configura como alternativas desarticuladoras da razão proléptica, já que oportuniza a intensificação dos encontros entre atores e atrizes sociais que versam as suas práticas educativas a propor ações para além doas parâmetros da linearidade ocidental. Portanto, convidamos aos interessados que enviem suas comunicações para reforçar e continuar a alimentar as prerrogativas que nos leve a traçar caminhos ricos da Razão Cosmopolita.
Palavras-chave: Educação; Corpo; Afro-Brasileiro; Ausências; Emergências.

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GT14 – Epistemologias do Sul na perspectiva do Paradigma da Complexidade

Edna Alves de Souza (UNESP) – souzaednaalves@gmail.com
Maria Eunice Quilici Gonzalez (UNESP) – gonzalezquilici@gmail.com

Resumo: Como observa Boaventura de Sousa Santos, se podemos falar de Epistemologias do Sul é porque existem Epistemologias do Norte. No livro intitulado Epistemologias do Sul, organizado por ele próprio e por Maria Paula Meneses, encontramos duas ideias basilares das Epistemologias do Sul. A primeira delas é a da inexistência de epistemologias neutras. A segunda é a de que as reflexões epistemológicas devem incidir diretamente na atividade científica e nos seus impactos em outras práticas sociais, não tendo efeito apenas sobre os conhecimentos abstratos. Em termos gerais, as Epistemologias do Sul consistem, de acordo com Santos & Meneses (2009, p. 7), no “[…] conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam a supressão dos saberes levada a cabo, ao longo dos últimos séculos, pela norma epistemológica dominante, valorizam os saberes que resistiram com êxito e as reflexões que estes têm produzido, e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos”. O objetivo deste Grupo de Trabalho é criar espaço para uma discussão interdisciplinar sobre investigações temáticas relacionadas às chamadas Epistemologias do Sul a partir de uma perspectiva do Paradigma da Complexidade. De acordo com tal paradigma, a análise de um problema deve ser feita com a atenção voltada para a sua multidimensionalidade, ou seja, considerando as suas várias escalas e perspectivas. Neste contexto, os objetos de estudo são pensados como um sistema, isto é, um conjunto de relações entre agentes e ambiente formando um todo funcional, uma estrutura (Souza et al., 2016). Ao contrário dos pressupostos do paradigma reducionista vigente desde a modernidade, que impediu a emergência ou o reconhecimento de saberes não redutível a ele, o paradigma da complexidade reconhece que o mundo é multifacetado, multicultural, e que o conhecimento é, portanto, contextualizado. Desse modo, consideramos que o Paradigma da Complexidade fornece instrumento metodológico adequado para a pesquisa de diversos temas relacionados à abordagem das Epistemlogias do Sul, tais como: o conceito de objetividade científica; um possível diálogo entre as ciências humanas e exatas no estudo de questões éticas; o conceito de justiça e suas implicações epistemológicas; a relação entre informação, ação e conhecimento; questões concernentes à identidade e diferença (individual e/ou coletiva); o impacto causado pelas novas tecnologias informacionais; novas perspectivas no estudo da epistemologia; a abordagem feminista da ciência etc. Consideramos que a discussão a respeito destes temas, desde um ponto de vista da perspectiva da complexidade, pode contribuir para o desenvolvimento da abordagem das Epistemologias do Sul.
Palavras-chave: Epistemologias do Sul; Paradigma da Complexidade; Interdisciplinaridade; Objetividade; Informação-ação.

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GT15 – A linguagem da (r)existência: lutas sociais e produção partilhada de conhecimento em audiovisual

Sônia Aparecida Fardin (UNICAMP) – soniafardin@gmail.com
Juliana Maria de Siqueira (ULHT) – ju.de.siqueira@gmail.com

Resumo: Nas sociedades contemporâneas, graças às tecnologias digitais e à interconexão em rede, os fenômenos da comunicação e da informação se desentranharam de uma esfera própria e passaram a interferir de modo decisivo nas dinâmicas sociais que envolvem a produção de riqueza, poder e sociabilidade, constituindo-se dimensões essenciais da nossa matriz cultural. Entretanto, são inúmeras as divisórias e controles que impedem a participação livre, democrática e igualitária dos diferentes sujeitos e grupos sociais no circuito que abrange a apropriação, a criação, a circulação e a preservação de mensagens, tecnologias e bens simbólicos. A barreira do consumo, o domínio de códigos-fonte e a vigilância são alguns desses mecanismos que dizem respeito aos dispositivos informacionais e comunicativos. Com relação aos conteúdos, sua produção e distribuição, em escala global, são controladas por um oligopólio de conglomerados empresariais, com capacidade de impor um discurso único e lançar ao apagamento e ao silenciamento imagens e vozes dissonantes. Contudo, de forma cada vez mais eloquente, multiplicam-se os agentes que se negam ao desaparecimento físico e simbólico e afirmam seu direito à comunicação. Os movimentos sociais e as comunidades que (r)existem nas fronteiras interculturais já compreenderam que as ferramentas midiáticas constituem hoje uma dimensão estratégica de ação, apropriando-se de seus meios e linguagens para se apresentar e dizer o mundo em primeira pessoa, denunciando as opressões e anunciando a possibilidade de outras formas de vida. Apropriar-se do audiovisual, criar, difundir e preservar as produções constituem hoje atos políticos de culturas que lutam pelo direito de continuar existindo. Além disso, configuram operações singulares por meio das quais se observa, se narra e se compreende o mundo, num gesto coletivo que, em si, é partilha e reinvenção. Nas aldeias indígenas, nos quilombos, nos acampamentos rurais, nos coletivos urbanos midialivristas, nos morros das favelas, nas muitas heterotopias, a experimentação em audiovisual dá lugar à emergência de novos modos de (trans-) ser, ver, fazer e conhecer, definidos pelo pensamento crítico emancipador, do Sul e para o Sul, e consistindo num laboratório instigante e inovador para as epistemologias descoloniais. Nesse sentido, o presente GT tem como objetivo reunir produções documentais, investigações e relatos de experiências realizadas em África, Ásia e Latino-América, envolvendo o audiovisual como ato imaginativo de (r)existência e como instrumento de pesquisa e criação partilhada de conhecimento numa perspectiva descolonial. Os proponentes que desejarem apresentar suas produções audiovisuais deverão incluir nos resumos as sinopses e fichas técnicas. Durante as comunicações orais, poderão ser exibidos materiais em suporte digital com até 15 minutos, consistindo de curta-metragens,traillers ou trechos editados de média e longa-metragens.
Palavras-chave: Audiovisual; Documentário; Epistemologias do Sul; Movimentos Sociais; Produção Partilhada de Conhecimento.

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GT16 – Olhares contra-hegemônicos: o reverso do visível ao invisível da mídia

Lineu Norio Kohatsu (USP) – lineubr@gmail.com
Eduardo Schwartzberg (USP) – shueduardo@gmail.com

Resumo: À imagem fotográfica atribuiu-se status de documento em virtude de sua constituição indiciária (Dubois, 1994), diferenciando-se de outras formas de representação. Contudo, como signo misto (índice e ícone) (Kossoy, 1999), as dimensões documental e representacional/ficcional se mantêm indissociáveis. Mais do que apenas um traço ou vestígio acidentalmente produzido a partir do real, a imagem fotográfica constitui-se por meio de uma interrupção temporal (congelamento) e um recorte espacial (fragmentação) intencionalmente realizados, denunciando a ação voluntária do fotógrafo para produzir uma imagem bidimensional (segunda realidade) que corresponda, não à realidade, mas à representação que se deseja veicular. Historicamente, no entanto, a fotografia foi considerada como imagem técnica, neutra e imparcial, produzida sem a interferência humana, tornando-se o instrumento ideal requerido pela visão hegemônica de ciência baseada nos pressupostos do positivismo. Contemporânea da etnografia, da antropologia e da psiquiatria do século XIX, a fotografia foi usada desde os primórdios como o olho mecânico da antropometria e da frenologia para confirmar as teses evolucionistas e eugênicas sobre a inferioridade física e mental de povos e indivíduos destituídos de razão, como os selvagens, os criminosos e os loucos, tomados como ‘o outro’ pela sociedade civilizada ocidental. A ativa simbiose entre a ciência e a câmera, confiante no seu valor documental, consolidou a fé cega na razão instrumental, contribuindo para a afirmação de uma ideologia colonialista, etnocêntrica e racista, incapaz de olhar criticamente para si mesma. Embora a fotografia continue sendo usada como método, técnica, instrumento ou mero recurso em pesquisas científicas, mesmo nas abordagens qualitativas seu uso segue de modo pouco crítico, prevalecendo concepções que exploram apenas o caráter documental do registro. Em virtude da complexidade da constituição da fotografia, agora digitalizada, a produção e a análise da imagem, tanto iconográfica quanto iconológica, conforme Kossoy, não podem ocorrer de modo dissociado da compreensão dos processos de constituição da imagem fotográfica, tanto no que se refere ao conteúdo quanto à forma. Assim, entende-se que a fotografia deve ser sempre considerada, indissociavelmente, como meio e objeto da investigação. Considerando o potencial da fotografia na produção de conhecimento da realidade, em suas diversas dimensões, incluindo-se aí a imagética, estética e cultural, entende-se que as críticas aos modelos epistêmicos e políticos hegemônicos, tais como propostos por Boaventura Souza Santos e outros pensadores críticos do colonialismo, não podem passar sem uma reflexão aprofundada sobre os modos e processos de produção, difusão e recepção das imagens. Este GT apresenta como proposta, portanto, a discussão interdisciplinar sobre o modo como as imagens, sobretudo fotográficas, tem sido usadas em pesquisas acadêmicas a partir de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas.
Palavras-chave: Fotografia; Epistemologia; Estudos Culturais; Teoria Crítica.

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GT17 – Relações Internacionais e Subalternidades

Gustavo Oliveira Vieira (UNILA) – gustavo.vieira@unila.edu.br
Karen dos Santos Honorio (UNILA) – karen.honorio@unila.edu.br

Resumo: A produção de conhecimento no campo das Relações Internacionais evidencia, de modo privilegiado, a geopolítica do conhecimento nos termos da modernidade/colonialidade. As teorias, as abordagens, os temas pesquisados e as soluções propostas partem de horizontes hegemônicos bem demarcados, criando armadilhas caras à periferia – que só tem espaço enquanto objeto a ser estudado e não como fonte de saber. A predominância das abordagens realistas, estatocêntricas, do Norte Global e patriarcais, constituem a premissa velada de imposição de uma divisão internacional da produção do conhecimento das Relações Internacionais em que o Sul Global tem o papel de macaquear, reproduzir e ecoar o que é produzido/compreendido a partir do “centro”. É nesse cenário que as abordagens subalternas se fazem necessárias – sem desconsiderar um diálogo com as teorias de Relações Internacionais que se constituem como ontológicas, cooriginárias, na demarcação deste campo do conhecimento científico. Haveria uma abordagem decolonial aplicado às Relações Internacionais (seja pela via dos estudos para paz, do direito internacional, dos direitos humanos, da sociedade civil pós-nacional, dentre outras matizes potencialmente vocalizadoras das demandas das subalternidades)? A construção da política externa latino-americana segue uma orientação crítica e localizada, ou marcha no ritmo das pretensões imperialistas? Essas e outras questões poderão ser pautadas a partir do Grupo de Trabalho ora proposto
Palavras-chave: Relações Internacionais; Subalternidades; Geopolítica do Conhecimento.

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GT18 – Jornalismo e narrativas do sul global: vozes e temas emergentes

Reges Toni Schwaab (UFSM) – reges.ts@gmail.com
Lara Nasi (UNIJUI) – nasi.lara@gmail.com

Resumo: O presente Grupo de Trabalho objetiva acolher e fomentar discussões sobre a construção, a circulação e/ou a recepção de narrativas originadas no sul global e produzidas sob a rubrica do jornalismo. Interessa alcançar sua potência e sua capacidade de ruptura, assim como o cenário social que dão a ver, abarcando as diferentes problemáticas que caracterizam nosso tempo, nosso espaço e sua significação. Encorajamos a proposição de textos que façam trabalhar as ausências, as diferenças, as desigualdades, assim como a sua superação, ou, em via oposta, tensionem iniciativas não-hegemônicas e propostas de informação ou contra-informação que emergem a partir dos países do sul. A busca por uma voz própria, a ação transformadora via linguagem e a articulação de modelos analíticos para entender essas especificidades, na direção de uma ecologia plural de saberes, contemplam de algum modo o que resta a ser pensado, conforme proposição de Bhabha (2002, p. 21), num “desejo repetido de nos reconhecermos duplamente como descentrados dos processos solidários e como agentes de mudança conscientemente comprometidos”. Trata-se de um gesto analítico partir de um olhar não colonial e moldado pela atenção aproximada ao que Gagnebin (2010) chama de “cacos” e “migalhas”, ou seja, objetos de interesse que possam representar a força da narrativa vinda dos vestígios. A despeito das grandes narrativas, as pequenas coisas, pela “significação do insignificante”, são tomadas aqui pela sua potência para o narrar. Além disso, na esteira dos vestígios podemos localizar um caminho para o desafio de pensar uma outra escrita jornalística, complexa a ponto de dar conta do contemporâneo e suas emergências. O esforço conceitual e reflexivo que o evento propõe novamente pode nos conduzir ao pensamento de Bhabha (2002) e seu anseio pelo que “altera o curso”, aquilo que possa ser a “fundação de possíveis edifícios outros” e que venha buscar conta das tão desafiadoras dinâmicas socioculturais atuais. E se a relação entre sujeitos é colocada como problemática central de nossas reflexões, o sul diante do sul reitera o Outro como o compromisso primeiro para a comunicação e o jornalismo, tendo a alteridade como perspectiva para a produção do conhecimento, marca do atual período histórico e dos objetos que o caracterizam, solicitando “novos sistemas de compreensão e novas formas de ação” (SANTOS, 2002, p. 96). Bhabha reage às ambivalências do mundo atual com a defesa de uma hibridação futura inevitável, com base em três elementos paradigmáticos: “a interlocução”, “o cosmopolitismo” e “a dúvida global produtiva”, concluindo que só o abandono das reivindicações identitárias obsoletas dará lugar ao “reconhecimento da diferença na igualdade”, com novas práticas políticas fundadas numa perspectiva pós-colonial. Considerando o escopo do evento e os direcionamentos aqui apontados, o GT terá especial interesse pela apresentação de textos que articulem e debatam o jornalismo e temáticas como cidadania, migrações, refugiados e deslocados, juventude, gênero, meio ambiente e narrativas de diferentes matizes, observadas em diferentes suportes, tais como rádio, televisão, jornais, revistas, quadrinhos ou livros escritos por jornalistas, além produções no meio digital, em espaços narrativos latino-americanos, caribenhos ou africanos, além de debates de caráter teórico-conceitual.
Palavras-chave: Jornalismo; Narrativas; Sul; Contemporâneo; Ruptura.

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GT19 – Mídia e identidades subalternas: novos olhares epistemológicos para atores emergentes

Wesley Pereira Grió (UFSM) – wgrijo@yahoo.com.br
Cristovão Domingos Almeida (UNIPAMPA) – cristovaoalmeida@gmail.com

Resumo: O cenário contemporâneo marcado pela revolução das tecnologias de informação e comunicação materializa, no âmbito do sistema capitalista, as práticas simbólicas de dominação, no entanto não se pode desconsiderar a constante discussão do mundo acadêmico sobre as questões relativas à diversidade cultural e epistemológica do mundo. Essa diversidade é marcada ainda pela emergência das pesquisas sobre problemáticas relativas ao mundo não hegemônico e, contemporaneamente, suas implicações no que convencionou-se denominar de “mídia”, uma esfera abstrata composta pelos meios de comunicação da sociedade nos seus mais diferentes suportes e formatos, segundo a noção de John B. Thompson. Nas discussões abordadas por este Grupo de Trabalho, pretende-se questionar, a partir de estudos de variadas áreas, a tradicional hierarquização de saberes e toda a produção de conhecimento cientifico inserida no que alguns denominam de “colonialidade do poder”. Dessa forma, a partir da discussão contemporânea das “Epistemologias do Sul”, conforme a contribuição de Boaventura de Sousa Santos, e de “grupos sociais subalternos”, na concepção originária de Antonio Gramsci, este Grupo de Trabalho se propõe discutir novas formas de pensar a relação entre mídia e alteridade a partir dos grupos subalternos, das práticas socioculturais e da cidadania comunicativa. Pretende-se trazer para discussão trabalhos que questionem o status quo simplificador de que dominados, deserdados e oprimidos, sem que tenham verdadeira consciência, configuram os seus comportamentos e habitus a partir das representações dos dominadores, o que configura em um dos grandes obstáculos à crítica e denúncia da dominação e à consequente libertação. Assim, no GT acolhe-se trabalhos que concebam a diversidade do mundo, o pluralismo epistemológico e reconheça a existência de múltiplas perspectivas que contribuam para o alargamento dos horizontes de observação da sociedade contemporânea, de experiências e práticas sociais e políticas alternativas.  De forma mais ampla, o GT busca refletir ainda sobre as contraposições entre as diferenças epistemológicas, as forças de dominação colonial e a resistência social à dominação científica, como forma de abarcar as singularidades epistemológicas para se consolidar ainda mais na pauta acadêmica os sujeitos singulares do mundo não hegemônico: indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, migrantes, trabalhadores (as) rurais, refugiados e outros grupos que possam ser contemplados na discussão. Além disso, pretende-se trazer para pauta acadêmica a possibilidade de afirmação de epistemologias alternativas e de abertura a outros desafios epistémicos.
Palavras-chave: Mídia. Sociedade. Identidades. Grupos subalternos. Epistemologia.

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GT20 – Colonialidades e de(s)colonialidade do crer, do saber e do sentir: implicações epistemológicas nos estudos da religião

Anaxsuell Fernando da Silva (UNILA) – anaxsuell.silva@unila.edu.br
Carlos Eduardo Pinto Procópio (IFSP/UFABC) – procopiocso@yahoo.com.br

Resumo: Cientistas Sociais têm evidenciado como os povos de origem europeia concebiam seus modelos de vida, sua religião e suas crenças como meios unívocos para chegar à verdade e ao domínio das coisas. E, ao fazê-lo, têm problematizado como a globalização em curso seria a culminação de um processo que começara com a constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado como um novo padrão de poder mundial. No campo dos estudos da religião, pesquisas recentes têm apresentado alguns sinais visíveis de uma fulgurante transformação epistemológica. No bojo desta mudança os referenciais da modernidade ocidental não se conformam como suficientemente úteis para compreensão do fenômeno religioso em toda sua complexidade no sul-global. No contexto de estudos pós-coloniais, de(s)coloniais e estudos subalternos, múltiplos aspectos de pressão, apreensão e repreensão devem ser considerados especialmente no que tange às transformações epistêmicas e suas implicações nas formas de saber, poder e crer, uma vez que interferem nas percepções de instituições tradicionais como a Família e a Igreja. Nesta direção, este grupo de trabalho pretende acolher comunicações de pesquisas que dialoguem com esta perspectiva e problematizem a religião, religiosidade, crenças e devoções a partir deste novo lugar epistemológico. Assim, consideramos ser fundamental a utilização das contribuições decoloniais/pós-coloniais como instrumento para reforma do conhecimento ou como instrumento heurístico para melhor compreensão da questão religiosa na América Latina. Não apenas por problematizar a interpretação binária dominador/dominado, mas também porque leva em conta os efeitos políticos e filosóficos deixados pelo colonialismo. Desse modo, terá lugar os trabalhos que reflitam criticamente a incidência pública das crenças/práticas religiosas, suas expressões políticas, literárias, artísticas, econômicas e sociais, enquanto espaços político-intelectual engendrado para que os povos subalternos falem por si mesmos.
Palavras-chave: Decolonialidade; Colonialidade; Religião; Religiosidade; Crenças.

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GT21 – Experiências em torno do gênero, raça e sexualidades: diálogos entre as ciências sociais e a decolonialidade

Paula Balduino de Melo (SEDF) – paulabaldu@gmail.com
Gleides Simone (SEDF) – gleides.simone@gmail.com

Resumo: Sistemas de poder como o racismo, o patriarcalismo, o capitalismo e a heteronormatividade estão historicamente conectados, estruturando e fundamentando modelos de relações políticas sociais e intersubjetivas em sociedades latino-americanas. Nesses modelos, os lugares (ou não-lugares) determinados para mulheres não-brancas, pobres e lésbicas são lugares de desvantagem estrutural, que ganham forma nas relações cotidianas, na trajetória dos afetos e na construção de subjetividades. Na América Latina, tais sistemas de poder tem uma historicidade intrinsecamente relacionada à colonialidade. Interessa-nos, especialmente, as dinâmicas contemporâneas desse processo. Em países como o Brasil e a Colômbia, por exemplo, o Estado multicultural, adotando um discurso oficial em torno da pluralidade étnico-cultural, encobre novas formas de colonização. A despeito dos avanços decorrentes da incidência de movimentos sociais indígenas e negros/afrodescendentes nos processos constituintes nacionais, os Estados relegaram a tais povos uma meia-inclusão, uma cidadania limitada e de segunda classe, como diz Silvia Rivera Cusicanqui. A construção do conhecimento também está intrinsecamente relacionada à colonialidade, tanto em sua dinâmica quanto em sua estrutura, silenciando a multiplicidade étnico-racial latino-americana. O saber ocidental eurocêntrico, em sua empreitada universalizante, fundamenta formas de produção do conhecimento e as sistematiza em instituições politicamente legitimadas para construir e difundir narrativas e dinâmicas epistemológicas. Outros sistemas de conhecimento, de povos de ascendência africana ou povos indígenas, são relegados a objetos de estudo. A partir dessas reflexões se faz imprescindível compreender as intersecções entre raça/etnia, classe, gênero e sexualidade. Parece-nos interessante pensar a cartografia do poder global a partir do “Sistema Moderno/Colonial de Gênero”, como sugere María Lugones. As relações que estabelecem e estabeleceram mulheres não-brancas, pobres e lésbicas, em suas trajetórias, nos trazem elementos para compreender princípios que estruturam as relações de poder e saber na sociedade latino-americana. Neste Grupo de Trabalho (GT), abordaremos as intersecções entre raça\etnia, classe, gênero e sexualidade nas relações interpessoais, nas afetividades e subjetividades. Serão bem-vindas também discussões que envolvam a relação entre essas categorias e a construção e legitimação do saber nas Ciências Sociais, bem como o seu diálogo com a Decolonialidade e propostas alternativas para fomentar uma ciência social que dê conta dessa articulação sui generis. Convidamos trabalhos cuja metodologia tenha referência na etnografia, na construção de narrativas baseadas em memórias e histórias de vida. Interessa-nos especialmente pesquisas no contexto brasileiro, colombiano e/ou equatoriano, com os quais temos familiaridade.
Palavras-chave: Raça/etnia; Gênero; Classe; Sexualidade; Colonialidade.

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GT22 – Epistemologias do ponto de vista e cosmopolitismos decoloniais

Cleber Daniel Lambert da Silva (UNILAB) – cleberlambert@unilab.edu.br
Caterina Alessandra Rea (UNILAB) – caterina@unilab.edu.br

Resumo: Neste GT, propomos lançar mão da noção de “cosmopolitismo decolonial” como operador para o encontro de diferentes iniciativas teórico-práticas que buscam desconstruir tanto o modelo universalizante, quanto os “particularismos exclusivos”. Trata-se de considerar as perspectivas críticas que se abrem com relação tanto aos marcadores sociais, quanto aos marcadores cosmológicos da diferença (na base, por exemplo, do antropocentrismo, o qual descuida de outras possibilidades de articulação natureza/cultura). O GT tem especial interesse pelas propostas de trabalhos que levem em conta construções conceituais que vão desde a proposta de um “cosmopolitismo crítico” e “decolonial” respectivamente em R. Grosfoguel e em N. Maldonado-Torres, ambos na esteira de F. Fanon, passando pelas noções de “abertura de mundo” e de “afropolitanismo” em A. Mbembe, pelo “pensamento-arquipelágico” em E. Glissant, pela “cosmo-práxis multinaturalista” em E. Viveiros de Castro, até a noção de “Africana Philosophy” em L. Gordon. Como afirma este último, o movimento de particularização da razão ocidental – que tem a pretensão de reduzir o universal aos seus limites- implica, ao mesmo tempo, o movimento de universalização das particularidades, doravante consideradas como perspectivas não sobre o mundo (pois como mostram encaminhamentos de B. Latour, de I. Stengers, de E. Viveiros de Castro, de Ph. Descola, o fundamento metafísico do colonialismo consiste nessa pacificação ontológica do mundo, que elimina/desqualifica outras matrizes cosmológicas), mas como perspectivas que envolvem mundos, modos de pensar e de existir. Isso significa, como aponta E. Balibar, que o debate entre universalismo e particularismo é menos interessante do que a questão acerca das diferentes concepções de universalização ou das diferentes políticas de mundo. Ao destacar a pertinência dos posicionamentos minoritários e de suas produções de conhecimento e modos de existência, para o tempo presente, não entendemos definir tanto um pertencimento identitário pensado de forma fixa e essencializada, quanto um engajamento político e epistemológico capaz de questionar o saber hegemônico ocidental e sua pretensão à neutralidade e universalidade. Retomando a distinção entre “lugar social” e lugar “epistêmico” (GROSFOGUEL, 2008), sinalizamos para a importância das epistemologias do ponto de vista e a construção de um saber localizado. Apontamos, assim, para “corpos” e “lugares” subalternizados em termos étnico-raciais, sexuais e de gênero, enquanto ponto de partida para a construção deste novo edifício do conhecimento, capaz de dar conta de “um mundo pluriversal” (GROSFOGUEL, 2008: 44) e não simples e abstratamente universal. Para Grosfoguel, como para a epistemologia feminista, é preciso questionar a estratégia dominadora do conhecimento ocidental, que consiste em ocultar o lugar de fala do sujeito produtor deste conhecimento, ou seja, seu posicionamento na trama das relações de poder étnico-raciais, culturais, de gênero, sexualidade ou de nacionalidade. Este GT dará atenção também para as produções da epistemologia feminista, em particular as posições dos feminismos terceiro-mundistas e do Sul, incluindo o feminismo chicano, com suas noções de “fronteira” e de “mestiza” (ANZALDÚA, 2005) e as críticas Queer of Colour, que enfrentam uma versão eurocentrada e branca da moderna epistemologia do gênero e da sexualidade. O GT propõe, por fim, operar o exercício cosmopolítico da tradução e da circulação entre mundos, evidenciando – como as discussões acerca do Antropoceno sinalizam – que o fato de pensar e fazer a diferença não significa ignorar o mesmo e o semelhante. Nas palavras de Mbembe: “há um só mundo” e “uma só humanidade”. O pluriverso perspectivista não é um relativismo, de modo que o cosmopolitismo decolonial avançado aqui, tal como em J.-G. Bidima, reivindica não um universal vertical, transcendente, fixo e eterno, mas um “universal lateral”, imanente, movente e aberto
Palavras-chave: Epistemologias do Ponto de Vista; Decolonialidade; Cosmopolítica; Perspectivismo; Pluriverso.

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GT23 – Formação Docente e Práticas Pedagógicas descolonizadoras: reflexões teóricas, relatos de experiências e estudos de caso em Sul global.

Maria Rita Santos (UNEB) – mariaritinhasantos@hotmail.com
Mille Caroline Rodrigues Fernandes (UNEB) – millecaroline@hotmail.com

Resumo: As pesquisas educacionais têm empreendido uma luta contra os discursos e as ações hegemônicas em educação. Esta luta tem sido retroalimentada pelo pensamento crítico de Frantz Fanon, Boaventura Santos, Stuart Hall entre outros pesquisadores que, sob a perspectiva de descolonizar o campo das ciências sociais e humanas, tem fortalecido e inspirado os movimentos sociais afro-indígenas, a partir de diferentes lugares de enunciação crítica do Sul. Assim, buscamos refletir, aqui, sobre as intervenções e práticas que constituem o campo da formação descolonizadora Sul-Sul, porque compreendemos a importância de dialogar sobre a construção de sistemas de ensino e práticas pedagógicas contra hegemônicas como estratégia de resistência e emancipação dos descendentes das populações da diáspora transatlântica e dos povos indígenas. Trata-se de propor um novo paradigma com um “conhecimento prudente para uma vida decente”, ou seja, um conhecimento inscrito no âmbito da eticidade e relação com uma experiência cognitiva preocupada com “a dignidade humana, com a não opressão, com a não-exploração, com a não-violação de direitos” (SANTOS, 2010. p. 19). Bem como, esse diálogo Sul global nos permite sair da “amnésia colonialista”, que por muito tempo insistiu em não reconhecer o outro na sua alteridade. Existe um conhecimento produzido pelas populações afro-indígenas que precisa ser compreendido, estudado, valorizado. Um conhecimento que envolve práticas humanas de sentidos que produzem outros saberes e que, acima de tudo, fortalece a identidade dos descendentes destes povos e (re)estrutura as práticas de pertencimento do coletivo. Pensar a formação docente em que práticas pedagógicas possam descolonizar o currículo neocolonialista, é traçar um caminho em direção a uma educação democrática, com justiça sócio-racial, não exclusiva, antimarginalização, a qual possa ser planejada e reconstruída a partir do conhecimento dos povos de descendência afro-indígena (TORRES SANTOMÉ, 2013). Compreender a história e cultura dos povos afro-indígenas exige dos professores e dos/as alunos/as, negros/as e não-negros/as, indígenas e não-indígenas, aprender a identificar, criticar, desconstruir os equívocos, omissões, discursos carregados de preconceitos, e, (re)construir novas epistemes, novas significações sobre a história dos seus antepassados. É importante que os professores estejam engajados/as em descolonizar suas práticas e conceitos eurocêntricos fragmentados, descontextualizados e carregado por uma ideologia de poder, que insisti em rejeitar a história e cultura dos povos afro-indígenas. O movimento que faremos aqui se refere à Formação docente e práticas pedagógicas descolonizadoras que primem pela emancipação dos descendentes afro-indígenas, à luz do pensamento de Santos (2010), quando diz que “todo conhecimento é localizado em determinado espaço e é a partir dele que se enxerga o mundo, (…) os diferentes espaços de práticas humanas, que estruturam a vida social e são igualmente espaços de produção de poderes, de direitos e de formas de conhecimento que não podem ser reduzidos” (SANTOS, 2010. p. 19). Portanto, promover a formação docente para o estudo da história e cultura dos povos afro-indígenas é participar com eles/elas da resistência à opressão e (des)cobrir permanências da herança material e intelectual dos povos afro-indígenas.
Palavras-chave: Formação; Docente; Práticas Pedagógicas; Descolonização.

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GT 24 – Arte verbal e descolonização da palavra: sobre as poéticas selvagens

Emerson Pereti (UNILA) – emerson.pereti@unila.edu.br
Gastón Cosentino (UNILA) – gaston.cosentino@unila.edu.br
Felipe dos Santos Matias (UNILA) – felipe.matias@unila.edu.br

Resumo: Em meio às ruínas epistemológicas deixadas pelas insurreições políticas na Bolívia no início deste século, que puseram abaixo o Estado oligárquico e a ideia de democracia burguesa no país, o filósofo Luís Tapia ensejou o conceito de “políticas selvagens”, intitulando um compêndio de ensaios publicado em 2008. Segundo Tapia, tais políticas seriam aquelas empreendidas em espaços e por sujeitos que se constituem e se movem por fora e além do estado, engendrando formas poderosas de contestação e desestabilização do neoliberalismo e do neocolonialismo, até então triunfantes. Fazendo um trocadilho com a expressão usada pelo autor, propõe-se aqui um espaço de debate sobre diferentes manifestações da arte verbal (escrita, oral, imagética) que desestabilizam ou redimensionam categorias pretensamente fixas da literatura ocidental, como o romance, o conto, o poema, o autor. Do mesmo modo que os movimentos comunais e nacional-populares questionaram a lógica neoliberal/neocolonial na Bolívia, as poéticas selvagens representariam aqui aquelas formas de expressão artística que resistem à domesticação da palavra empreendida pela contínua colonização ocidental mediante seus avatares modernos e pós-modernos; pelo circuito midiático do grande mercado; pelo meio editorial hegemônico e pelas estruturas de poder patriarcal e cristão que ainda sufocam o conceito de literatura. Herdeiras do que Martín Lienhard classificou como literaturas alternativas na América Latina – Guaman Poma de Ayala, José Maria Arguedas, Juan Rulfo – elas são agora atravessadas por subjetividades em constante reconfiguração, o feminino, o transgênero, o subalterno, o marginal, o apátrida, o descolonizado. Como as políticas selvagens analisadas por Tapia, essas poéticas abrem novas possibilidades de expressão em um momento no qual o espaço da chamada Literatura parece cada vez mais fechado sobre si mesmo.
Palavras-chave: Arte Verbal; Descolonização; Poéticas Selvagens